Uma breve descrição sobre o que vem acontecendo no estado do Rio de Janeiro desde o começo do ano passado com relação às favelas e à construção do chamado pela comunidade de "Muro da Vergonha".
O governo do estado do Rio de Janeiro, no mês de março do ano passado, apresentou à população carioca um projeto que visa a construção de muros para conter a expansão de 19 comunidades carentes espalhadas pelo estado.
Com um orçamento de R$40 milhões, o projeto, segundo as autoridades , tem a intenção de proteger a vegetação nativa remanescente nessas regiões, com aproximadamente 11km de muros e a remoção de 550 casas populares que devem dar lugar à nova construção.
Os muros vêm sendo construídos desde então.
No entanto, é interessante observar, que segundo dados do IPP (Instituto Pereira Passos), o Santa Marta, onde os primeiros blocos de concreto foram alocados, foi uma das favelas que não registrou expansão territorial entre os anos de 1998 e 2008. Pelo contrário, a comunidade encolheu em aproximadamente 1%. Observe o gráfico e as imagens abaixo, com dados do IPP:

Na minha opinião, assim como na de Rocinto Castro, Presidente da Federação das Favelas (como pode ser conferida no vídeo abaixo). A construção destes muros tem a finalidade de isolar a pobreza, como se as favelas não fizessem parte do Rio e aquela população pertencesse a outro lugar, fazendo com que os locais isolados pelos muros se assemelhem aos guetos.
Guetos que separavam os Judeus do resto da população nazista na alemanha e em outras partes da europa ocupadas por Hitler durante os seis anos de duração da Segunda Grande Guerra; aos guetos do regime político do Apartheid na África do sul, instituído no fim dos anos 40, que isolava a população negra nativa e indígena da população branca; aos guetos à que a população palestina é obrigada a viver na faixa de gaza e no interior da Cisjordânia, em consequência da criação do estado de Israel, se eu não me engano no mês de maio, em 1948 e da posterior construção de um muro cercando a Cisjordânia, que isola a população palestina daquela região do oriente médio; e a outras diversas formas de exclusão, que terão espaço em outras linhas deste blog, brevemente.
SOLUÇÕES?
Esses 40 milhões de reais, poderiam ser usados, por exemplo, para o início de um programa de melhoria das habitações, de contrução de casa populares no lugar das moradias mais simples, enfim, o argumento colocado pelo poder público para a construção dos muros – preservação ambiental – mostra-se frágil quando confrontado com os dados que tratam da opinião dos moradores e da expansão da favela como é mostrado na imagem acima.
Um plebiscito foi realizado na Favela da Rocinha, no dia 25 de abril de 2009. A consulta foi promovida pela Associação de Moradores da Rocinha e foi encerrada com um total de 1173 votos, dos quais 1111 foram contra os muros, 56 a favor e 6 nulos. Isso mostra a insatisfação da comunidade.
Pesquisando um pouco mais sobre o assunto, me deparei com uma descrição do escritor Português, na minha opinião, um excelente escritor, José Saramago, sobre o assunto:
"Cá para baixo, na Cidade Maravilhosa, a do samba e do Carnaval, a situação não está melhor. A ideia, agora, é rodear as favelas com um muro de cimento armado de três metros de altura. Tivemos o muro de Berlim, temos os muros da Palestina, agora os do Rio. Entretanto, o crime organizado campeia por toda parte, as cumplicidades verticais e horizontais penetram nos aparelhos de Estado e na sociedade em geral. A corrupção parece imbatível. Que fazer?"Que fazer?Encontrar a solução para o problema das favelas certamente não é tarefa fácil. O fato é que a construção destes muros, está longe de ajudar a população que vive nas comunidades. Pelo contrário, só traz a segregação e a exclusão dos moradores da favela.
Já Dizia Adoniran...Abaixo, uma das geniais letras de Adoniran Barbosa, pra mim, o maior nome do samba paulista, que conta a história de um despejo na favela.
Despejo na Favela (Adoniran Barbosa)
Quando o oficial de justiça chegouLá na favelaE contra seu desejo, entregou pra seu Narciso, um aviso pra uma ordem de despejoAssinada, seu doutor , assim dizia a petição:Dentro de dez dias quero a favela vazia e osbarracos todos no chão.É uma ordem superior,Ôôôôôôôô Ô meu senhor, é uma ordem superiorNão tem nada não, seu doutor, não tem nada nãoAmanhã mesmo vou deixar meu barracãoNão tem nada não, seu doutor, vou sair daqui, pra não ouvir o ronco do tratorPra mim não tem problema em qualquer canto me arrumo de qualquer jeito me ajeitoDepois o que eu tenho é tão pouco minha mudança é tão pequena que cabe no bolso de trás. Mas essa gente aí, hein?! Como é que faz?
(Alguma semelhança à primeira imagem deste post? Justiça?Religião? Esperança? Força? Fé?)E quanto a você, caro leitor, considera este muro solução?
Para mais informações acesse o site:
Observatório de FavelasE não deixem de conferir o vídeo acima.